Artigos de Formação

Subir a Colina Sagrada

 Dom Murilo S.R. Krieger, scj

Arcebispo de São Salvador da Bahia e Primaz do Brasil

 

Subir a Colina Sagrada ao encontro do Senhor Bom Jesus do Bonfim, em Salvador, faz parte da vida de soteropolitanos e baianos, de peregrinos e turistas que visitam nossa cidade. O que há por trás desse gesto? O que leva uma pessoa a ir e, particularmente, a voltar, tantas vezes quantas lhe for possível, ao Santuário do Senhor do Bonfim?

Sonhamos pertencer a uma única e grande família. Em vista disso, fazemos amigos, com os quais dividimos alegrias e tristezas, e trabalhamos para que em nossos relacionamentos prevaleçam o amor e o carinho recíprocos. Nossa vida é como uma peregrinação em busca de um sentido para a própria existência. Peregrinar pelo mundo significa descobrir a verdade sobre as criaturas de Deus – o povo, a cultura e a natureza.

Os santuários – e não só o do Bonfim -, meta de peregrinações, têm atraído um número sempre maior de turistas. Não basta, contudo, incentivar alguém a visitar um lugar sagrado: é necessário preparar o coração daquele que fará a peregrinação e possibilitar-lhe que se aprofunde no “mistério”. Se isso não for feito, sua visita se tornará um mero passeio, do qual levará tão somente algumas lembranças e muitas fotos.

Em nossas peregrinações, muito podemos aprender com os irmãos do Antigo Testamento. Eles sentiam um desejo irreprimível de ir ao Templo de Jerusalém. Quando começavam a caminhar, iam em direção do alto, onde estava Jerusalém. Rezavam, então, os chamados “Salmos de subida” (Sl 120-134), preparando seu coração para o encontro com o Senhor: “Alegrei-me quando me disseram: `Vamos à casa do Senhor´” (Sl 120,1). Aos poucos, eles foram descobrindo que mais do que a ir a um lugar – Jerusalém, Templo etc. – estavam fazendo a mais importante e difícil viagem: aquela que os conduzia ao íntimo do próprio coração, onde Deus os aguardava.

Milhões de pessoas viajam anualmente para outros continentes ou dentro de seus próprios países para fazer uma experiência “diferente”. Quer o turista, que sai para conhecer novas terras, culturas ou pessoas, quer o peregrino, que sai em busca de uma experiência religiosa, todos sentem uma profunda necessidade de se por a caminho. Caminhando, acabam fazendo uma descoberta que Santo Agostinho assim resumiu: “Tu nos fizeste para ti, Senhor, e inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em ti”.

Quando, pois, você for subir a Colina Sagrada, vá com espírito de peregrino. Ao contemplar o Senhor do Bonfim, que o acolherá de braços abertos, é possível que nasça em seu coração uma prece semelhante à de Santo Agostinho: “Tu estavas dentro de mim e eu fora te procurando… Te saboreei e agora sinto fome e sede de ti”. Se isso acontecer, será sinal de que você entendeu o que é ser peregrino.

 

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