Seminário Laudato Si resulta em Carta dirigida a toda a sociedade

Publicado por em 8, novembro 2017

 A cidade de Feira de Santana (BA) recebeu durante os dias 27, 28 e 29 de outubro, quase 100 representantes de entidades religiosas, organismos socioambientais, universidades, movimentos sociais e da Igreja Católica presente nos quatro cantos da Bahia e Sergipe para discutir questões, fomentar práticas e assumir compromissos ligados à temática socioambiental. Os participantes se inspiraram no documento que deu nome ao evento: a Encíclica Laudato Si, escrita pelo Papa Francisco em 2015.

Leia na íntegra a Carta produzida como fruto do seminário:

CARTA DE FEIRA DE SANTANA

Seminário sobre a Encíclica Laudato Sí’ – 27 a 29 de outubro de 2017

Ao Povo de Deus na Bahia e Sergipe e a todas as pessoas de boa vontade,

“O amor, cheio de pequenos gestos de cuidado mútuo, é também civil e político, manifestando-se em todas as ações que procuram construir um mundo melhor.” (Laudato Si’, 231)

Nós, 116 representantes das comunidades eclesiais, pastorais e organismos, bispos, representantes de outras igrejas, povos indígenas e comunidades tradicionais, universidades e movimentos sociais da Bahia e Sergipe, reunidos no Centro de Formação Cristã Dom Itamar Vian, em Feira de Santana, Bahia, em atenção ao apelo da Assembleia de Pastoral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, Regional NE III, nos debruçamos sobre a Encíclica  LaudatoSi’, do Papa Francisco, em busca de iluminação sobre a nossa situação socioambiental e resposta à pergunta que ressoa,  há tempo,  dentro de nós: o que está acontecendo em nossa casa?

As discussões nos ajudaram a ver que a degradação do ambiente requer atitudes novas, uma verdadeira conversão no modo de olhar a Criação e a nossa relação com ela, conforme sugere o Papa Francisco em sua Carta. Além disso, vimos que os grandes desafios socioambientais estão na origem dos graves conflitos que envolvem povos originários, comunidades tradicionais, camponeses e populações das cidades, acentuando ainda mais o estado de desigualdade e empobrecimento das pessoas. Assim, inúmeras famílias são afetadas pelas consequências de um modelo desenvolvimentista desumano e sofrem com o avanço do agro e hidronegócio, dos monocultivos, da mineração, da indústria petroquímica e petrolífera e de inúmeros outros empreendimentos que têm gerado degradação do ambiente: rios, mares, mangues, florestas. Este modelo traz consequências como a migração forçada, tráfico humano, extermínio da juventude, principalmente negra, violência contra as mulheres, a população de rua e insegurança alimentar e nutricional.

Julgamos esta realidade a partir do estudo da Carta que, por sua vez, sugere uma nova espiritualidade para o nosso tempo conturbado, mas esperançoso. O documento nos convida a uma conversão pastoral e a uma conversão ecológica, ao mesmo tempo é um alerta e um convite a cada pessoa que habita o planeta.

Sentimos pertinente, na Carta, a crítica a uma lógica antropocêntrica que coloca o ser humano no centro, visto como produtor de “riqueza e progresso numa só dimensão”. Sentindo-se autorizado a dominar e a explorar a natureza de modo inconsequente, tende a dominar brutalmente os seus semelhantes; daí, a urgência a mudar a relação com todos os seres vivos. A Carta alerta para a crise ecológica e ética que transforma em mercadoria a natureza e até as pessoas; e nos chama a considerar a importância do modelo de Ecologia Integral que alia questão ambiental à questão social, onde a vida esteja no centro das decisões.

Durante o encontro concluímos que a causa indígena e das comunidades tradicionais é uma causa de todos nós. Ao defender e apoiar seus territórios estamos defendendo a natureza e a nossa casa comum.

Ficamos alegres com as notícias e informações, vindas de todos cantos de Bahia e Sergipe, de que neste chão do Regional acontecem inúmeras iniciativas de vida: Pastoral do Meio Ambiente, economia solidária, experiências de reuso e reciclagem de materiais descartáveis, convivência ecológica, agroecologia, recomposição de matas e recuperação de nascentes,  a Convivência com o Semiárido que, em poucos anos, com a mobilização popular, resultou  na confrontação da indústria da seca e na erradicação da fome no sertão, resultado que parecia impossível no linguajar comum que queria marcar para sempre a história do nosso Nordeste. Do mesmo modo são sinais de vida o enfrentamento ao trabalho escravo, ao tráfico humano e abuso sexual, através das ações de proteção às crianças, adolescentes e mulheres, da denúncia e resgate de trabalhadores e trabalhadoras.

Preocupa-nos o MATOPIBA, projeto de produção de grãos para exportação no Cerrado que ainda resta, 50% do original, nos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, que vai significar total degradação ambiental e liquidação dos povos que ainda os preservam.

São motivos de esperança a religiosidade popular, a resistência das comunidades e nossa fé e disposição de luta, apesar deste momento em que a democracia no país vem sofrendo graves ameaças, a comprometer o presente e o futuro de nossa gente.

Ao final do seminário, firmamos compromissos de ação, que cada participante, diocese e sub-regional do Nordeste III saberá como implementar:

Proposições para o âmbito eclesial

- Divulgar e disseminar a Laudato Si’, através de oficinas e encontros e no trabalho de base, com comunidades e movimentos sociais, nas escolas etc.;

- Elaborar subsídios sobre a Laudato Si’ para o trabalho de base, inclusive nos materiais sobre o Mês da Bíblia, Novena do Natal, Círculos Bíblicos, da catequese, para juventude etc.;

- Ações de articulação no NE3 e nos sub-regionais, com intercâmbio de experiências exitosas entre comunidades e municípios;

- Criar Redes Laudato Si’ nos sub-regionais;

- Criar e/ou fortalecer a Pastoral do Meio Ambiente;

- Estimular a articulação de um Fórum das Pastorais Sociais (Cáritas e as do campo – CIMI, CPP, CPT – já iniciaram) e do Meio-Ambiente;

- Criar lista de e-mails e whatts’app do NE3 para discussão e articulação de ações socioambientais;

- Dar ou ampliar espaço nos ambientes eclesiais para os povos e comunidades tradicionais e suas lutas pelo territórios e modos próprios de viver;

- Promover nos eventos da Igreja espaços para comercialização de produtos da agricultura camponesa e familiar.

Proposições para os âmbitos individual e social

- Estimular práticas de cuidado e conversão ecológica no cotidiano individual e familiar;

- Piquenique comunitário para contemplação da natureza, partilha, interação e lazer; com isso despertar para o cuidado de espaços assim para todos e todas;

- Educação ecológica nas escolas e grupos de catequese;

- Incidir nos conselhos municipais, em especial o de meio ambiente;

- Realizar mapeamento das lutas territoriais e iniciativas locais balizadas pelo Bem Viver, p. ex. as de agroecologia, feiras e vendas diretas de alimentos orgânicos, as da ECOSOL etc.;

- Incentivar e apoiar iniciativas como os quintais produtivos, hortas comunitárias, hortas urbanas, proteção de nascentes, bancos de sementes crioulas, viveiros comunitários de mudas nativas etc.;

- Retomar ou reforçar o trabalho de base nas comunidades com o objetivo de fortalecer sua autonomia;

- Incentivar os grupos organizados a buscar do poder público apoio para execução de projetos e parcerias nas ações;

- Retomar a Rede Brasileira de Justiça Ambiental, com destaque para as identidades sociais e territoriais;

- Incidir com a discussão do Bem Viver no Fórum Social Mundial.

Convidamos todos e todas a se juntarem a nós nesta empreitada imprescindível na hora presente, conforme o apelo do Papa Francisco na Laudato Si’.

Feira de Santana, 29 de outubro de 2017.

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